
“
Se fechares os olhos e apagares todos os aparelhos de comunicação, se permaneceres nos parques onde as crianças crescem, esta será sempre uma boa manhã para a humanidade (.../..).”
A citação é deste
blog que
alguém me entusiasmou a conhecer e que, à primeira vista, hei-de lá voltar, é um lugar tremendo de expressão própria e que me provocou a mesma sensação de emaravilhamento que tive quando descobri
este. Fica aqui o caminho.
Ainda dentro da blogosfera mas no seu exterior, no
Encontro Informal de Blogues que ontem decorreu na Sociedade Nacional de Geografia e ao qual dei um salto, de mais ao menos uma hora, estava em trânsito para um aula mas o interesse, e a curiosidade, era mais que muito. Gosto de ver hologramas, o meu próprio, em carne e osso.
Em jeito de prolongamento, alinho aqui uma das questões que lá ouvi e que me acompanharam ainda quando de lá saí. A anotação, por
Paulo Querido,
do assobiar para o lado que a comunicação social tem dado a este fenómeno, faltando nesta um tipo de trabalho que capte a importância que ele terá.
1. Numa sociedade altamente mediatizada em que o instante de luz é que confere senão existência, pelo menos a participação numa mundividência comum, é naturalmente recorrente, quer como critíca, denúncia, contestação, queixume ou mera constatação, a ideia de que
a comunicação social quase nunca fala do que deve falar. E assim será, sem dúvida. Sendo também que raras vezes, no nosso entendimento, aquilo de que ela se deve ocupar não é outra coisa senão aquilo de que nós próprios nos ocupamos. O tema merece uma reflexão mais aprofundada, somos o que comunicamos e comunicamos aquilo que somos, não somos apenas aquilo que comunicamos e não comunicaremos apenas aquilo que somos, mas assim, em meia palavra, talvez o mais sensato seja mesmo não negar nem a evidência da regra, nem a possibilidade da sua excepção.
E
encontrar outras possíveis respostas na descoberta da
surpreendente ironia deste argumento: é que o fenómeno da blogosfera, da blogolândia, da blogomania, tem como uma das suas consequências mais imediatas a pulverização de uma espécie de
absolutismo triunfante da agenda mediática, através da emergência de um relativismo não menos - tendencialmente claro - absoluto,
de uma mediatização centrada no sujeito.
Eu exposto na minha fragilidade de folha onde se refractam múltiplas outras realidades, algumas das quais impostas pela agenda mediática. Mas mesmo assim surgindo como instantes refractados. Falarei sempre e ainda mais uma vez da guerra, do iraque, da palestina, de israel, da politica americana, das escutas e da casa pia, mas também deixarei escapar a minha vontade de lhes negar essa relevância e darei assim a ver, mais uma vez, através desta tensão, o sujeito atrás, ou diante, ou à frente, do mundo que o oculta.
2. Ainda sobre
a ironia deste argumento: não será muito certo dizer que a comunicação social não se ocupa deste fenómeno. Não é preciso citar nomes nem ocorrências. Excepto talvez António Guerreiro (AG), já que o seu texto “A Reportagem Universal” (disponível no Metablogue) tem algumas pontas que merecem a pena ser seguidas. A própria blogosfera tem blogues que funcionam como autênticos meios de comunicação social. Aliás esse paralelismo entre o
novo mundo da comunicação social que o mundo da blogosfera prenuncia, era uma das observações mais interessantes do texto de AG a que fiz referência.
É verdade que a abordagem que os media fazem desta fenómeno anda muito por estratégias de fulanização ou personalização, de criação de factos mediáticos e de protagonistas, pelo embevecimento encantado, pela deturpação, e que assim sendo, é legítimo dizer que a comunicação social não se tem ocupado verdadeiramente deste fenómeno.
Tal no entanto não se deverá tanto a um problema que esta, entendida nos seus grandes meios, tem com este fenómeno, mais com a sua crescente incapacidade de se tornar num
forúm de revelação e compreensão da sociedade contemporânea. E tal não se deverá à extensão, quantidade e redundância dos discursos mediáticos. Ainda hoje João Paulo Baltazar abria o noticiário das dez na TSF com um estudo sobre a nossa submersão em informação, em que se referia o
hexabyte (escrevo como ouvi), unidade de medida destinada a tentar dar-nos a dimensão descomunal da quantidade de informação que nos circunda. Dentro desta não estava identificada aquela que é produzida pelos grandes meios de comunicação social, mas há uma coisa que todos nós sabemos: não é pela redundância, às vezes perto do insuportável, com que eles nos contam repetidas vezes as mesmas histórias que ficamos melhor informados. Ou seja, não tenhamos ilusões,
cada vez que eles, por si só, sem algum apoio, se dedicarem a dar-nos conta do que passa na blogosfera, estarão cada vez mais, a não se ocupar verdadeiramente deste fenómeno. Porque é esse o limite dos discursos dos grandes meios de comunicação social. É claro que têm estratégias muito sedutoras para nos fazerem esquecer essa perna curta com que desbravam caminhos. Não se ocupando verdadeiramente dos fenómenos, ocupam-os e ocupam-nos com
hexabites de informação. Que acabam por se constituir como
estratégia poderosa
de substituição daquilo que fomos habituados a pensar que era irredutível à condição humana:
a necessidade de compreender o mundo em que vivemos. E por isso, por esse poder sedutor dos discursos que surgem nos grandes media, que poucas vezes somos levados a descobrir que
o seu poder não
advém de serem discursos fortes e robustos, sim o
de não precisarem de serem fortes e robustos para adquirirem o seu extraordinário poder. A
morte do pensamento não sendo notícia, é a única relevância do noticiário de todos os dias.
2. Atrás escrevi que o “
fenómeno da blogosfera, da blogolândia, da blogomania, tem como uma das suas consequências mais imediatas a pulverização de uma espécie de absolutismo triunfante da agenda mediática” através da emergência de um relativismo não menos - tendencialmente claro- absoluto, de
uma mediatização centrada no sujeito.
Porque me parece a mim que é impossível dissociar uma reflexão sobre a blogosfera de uma outra sobre os grandes media. O que é que se passou para chegarmos aqui?

Como é que nos encontramos hoje aqui, neste lugar? Ou seria mais, senão correcto, pelo menos prudente, dizer,
não lugar? Começo pelas
ressonâncias. A ideia de uma
mediatização centrada no sujeito, remete-nos desde logo, nem que seja pelo
ressoar, para conceitos e práticas que fizeram escola no século passado, como, entre outros, a terapia centrada no paciente, a pedagogia centrada na pessoa. Ecoam também as palavras de Gilles Lipovetsky, quando em “A Era do Vazio” anunciava que um dia o mundo estaria cercado de paredes de “
narcisos”, numa apoteose expressiva em que cada um seria a expressão e o riso de si mesmo. Ou de quando estendia esse anúncio a uma desafeição de que se revestiria o mundo.
De que é feito afinal este
rumorejar? Quem somos nós e o que fazemos aqui? Cumprimos as profecias e desfragmentamo-nos, desalojando a humanidade que em nós sempre tivemos por habitante? Será ainda muito cedo para responder, no entanto há algumas tentativas de resposta que nos colocam diante daquilo que poderá ser importante. Lembro-me que uma vez o Luís,
da Natureza do Mal, ter escrito que este mundo dos blogues era um mundo onde a descida de cada um ao seu próprio abismo - ideia de
abismar-se que também encontrei há muito num texto do
Abrupto - era, ou poderia ser, modo de reescrever a cidadania. Encontramos um possível contra-argumento desta ideia em AG “:
não é preciso ter lido Habermas para perceber que a expressão individual e o direito à opinião que alimentam a maior parte dos blogs têm um grande valor decorativo mas não têm nada que ver com uma esfera pública crítica (que, de resto, tem cada vez menos condições, em Portugal, para se constituir)”. Aquilo que poderá ser importante: a forma como o mundo dos blogues trabalha
o mundo do sujeito. Trabalha no mundo do sujeito.
O
mundo do sujeito, sendo o mundo do indíviduo, não o é do individualismo, ou se quisermos, daquele
individualismo selvagem contra o qual, nunca demasiadas vezes, vociferamos.

Aprendi-o enquanto actor. Ali no palco não podia estar desligado da
minha circunstância exibicionista , mas ela, a sua exponenciação ao infinito, levar-me-ía sempre para diante de um espelho, o espelho dos meus doze, treze anos, onde eu treinava os esgares e os olhares profundos dos Brandos deste mundo, nunca me traria ali, ao encontro de outras pessoas, trabalho do presente ao presente, como lhe chamou um dia J.P.Ryngaert. Ali, diante dos outros, exprimo-me, tenho acesso a esse privilégio da expressão porque alguém me escuta, porque alguém sentado na cadeira me escuta, e só posso exprimir-me porque alguém, por razões que desconheço, não se pode exprimir, e então, este meu gesto que nasceu da descoberta do narciso que há em mim é também a
explanação do político que em mim respira e habita:
ouvir-me-ás mais uma vez e sempre mas eu falarei para que a tua voz se ouça através de mim. Ouvir-me-ás mais uma vez e sempre até que o teu instante inaudível desapareça e o teu grão de voz substitua este eco de ti em mim.
O mundo do sujeito é
o mundo da expressão de si mesmo e este, por dentro das paredes da mansão narcísica, é
a morte do narciso. Não será preciso contradizer AG, ele já o faz com infinita paciência e desvelo, há apenas que observar
o cortejo fúnebre do narciso que todos os dias, como uma santa romaria, atravessa o mundo dos blogues. A
mediatização centrada no sujeito não é feita do exterior, como acontecia naquelas ideias do século passado com as quais esta ideia produz ressonâncias automáticas. É feita pelo próprio. Que lê e escreve o mundo, reinventando o fluxo com que escapa á sua maldição de
espectador encaixotado no seu suícidio de mundo.

Que escreve o mundo ligando-se a outros universos. Fio de rede ligando
continentes anões, decerto, mas este
mediatiza-te a ti mesmo também é indissociável daquela ideia de Sartre : “
Escrever e pensar é comprometermo-nos, comprometermo-nos é trabalhar para os outros”.
É por isso também que nada se deve esperar ainda do trabalho que o mundo dos grandes media (e antes dos blogues poderíamos falar em
meios de comunicação de massas mas que propriedade tem essa ideia, hoje, quando as mensagens destes meios se pulverizam por milhões de
sujeitos) realize sobre
o mundo da blogosfera. A blogosfera é uma tentativa, como tantas outras que já encetámos antes, de nos aproximarmos do sujeito que em nós reside. De descobrirmos o pensamento relacional, o aqui e agora de uma outra forma, é certo,
o meu corpo está aqui na solidão desta mesa e não vai até aí, ao lugar distante neste universo mundial dos blogues onde tu me escutas, mas eu sei que aí, onde me recebes, és voz, és corpo e sangue e também danças se for preciso. Encontraremos - pelo menos é nessa utopia que nos encontramos aqui - um meio termo, um ponto de equilíbrio para esta relação ausente do corpo, e não do sujeito. Claro que corremos o risco de nos desfragmentarmos nesta ausência mas olha para o teu lado,
não corremos sempre esse risco?
Uma última ideia,
a da desafeição que revesteria o mundo, ou que reveste o mundo de que nos fala Lipovetski. Não teria sido necessário o CAM ter inventado o
Campo de Afectos para percebermos que este é o universo

da afeição. O sujeito que a si e aos outros se revela, até pela fragilidade em que coloca quando se expõe na sua
gangrena de bicho, inventa-se numa delicadeza de ser e estar que, percebe pouco a pouco, é a única condição indispensável nesta
apoteose universal do sujeito.
Do universo apoteótico do sujeito.
[as fotografias de teatro são de Susana Paiva, as outras foram retiradas a partir do Ter Voz]