Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Tráfico de influências

Ai, como eu gostava que todas as histórias sobre tráfico de influência fossem como as daquele homem fascinante e íntegro que conheci nos Olivais.

Sonhos pequenos

Sempre pensei que deveríamos ter sonhos grandes. E continuo a pensar. Mas há que ter alguns pequenos, para os podermos realizar sem grande esforço. Na minha infância em Mafra não havia Verão sem a temporada de idas diárias à praia na Ericeira. Tudo começava por uma passagem pelo mercado, onde comprávamos fruta e farturas. Depois, ficávamos ao pé da praia do hotel, onde as rochas aninhavam o mar numa pequena baía que tranquilizava a minha mãe sobre as aventuras aquáticas dos seus três filhos. Eu olhava para as varandas largas do Hotel da Ericeira, vía aqueles estrangeiros a olharem sobranceiramente a praia, e coloquei na lista dos sonhos ficar uma noite daquele lado da vida. Nunca calhou até porque, creio, este Hotel foi-se degradando, ano, após ano. Até que um novo proprietário lhe fez obras. No outro dia, íamos jantar a casa de uns amigos na Ericeira, comecei por ali. Marquei um quarto, com varanda e vista de mar. À noite estava um frio de rachar e mal dava para ficar na varanda. Agasalhei-me todo e lá fui, saborear o ar fresco e o barulho do vendaval e das ondas do mar. E quando nos deitámos lá risquei mais um pequeno sonho do meu moleskine mental.

Cabelos de vento

Fiz-me o seu fotógrafo. A sua imagem à semelhança do seu mundo. Ericeira, Dezembro de 2009.

A voz humana

Para mim é da ordem do mágico, o gravador. Gravar uma voz, nessa tessitura subentender uma vida, uma história, um país. Tudo aquilo a que num repente de lucidez e de ternura chamámos O outro. Vou parecer antigo: sou do tempo em que a magia do Outro nos fazia reverbrar. Gosto por isso da magia das reportagens e das entrevistas. Aprendi, desde muito novo a gostar de ler Oriana Fallaci. Ou a ler as entrevistas aos meus filósofos de culto e afecto, Bertrand Russel, Sartre, Karl Popper. Bergson. Guardo, já nem sei onde, mas sei que algures neste mundo há caixotes de recortes de jornais que eu coleccionei, com entrevistas a todos eles. Há pouco tempo, a propósito de umas entrevistas que fiz a Marcantónio Del Carlo e ao João Didelet, para ajudar à divulgação do espectáculo (eu fiz a assessoria de imprensa de Figuração Especial), voltei ao género e gostei. Já antes, para o making off da Desobediência tinha entrevistado (com imagem do Joaquim Diabinho) o Rui Mendes. Eram coisas que eu deixara de fazer há muitos anos. Tinha-o feito para a Revista o Actor e para o Dn Jovem. Levo muito a sério isso. Gosto de ler, pesquisar a informação e gosto do pequeno confronto que há numa entrevista. É uma espécie de jogo em que, quando vale a pena, ninguém sabe muito bem quem conduz o quê. Foi o que me aconteceu quando falei com Faustin Linyekula. Eu estava com receio, o meu francês estava empoeirado. E pela primeira vez tinha um repórter fotográfico comigo. E entrava e saía gente do camarim. Eu conheço os ambientes. Fiz assessoria de imprensa no Teatro da Trindade. Mas eu só pensava, estes gajos todos vão perceber que eu não percebo nada disto. O próprio Linyekula, um tipo simpático e disponível mas que queria fazer a conversa comigo antes do ensaio, e a quem eu disse que esperava o tempo que fosse preciso mas que só falaria com ele no final, vai chatear-se comigo e dizer-me, precisamos de tradutor. E eu vou enfiar o rabo entre as pernas, matar aquele sonho incompleto de entrevistar, pensar, perdi muito tempo, agora só se voltar a acreditar na transmigração das almas - teoria que fugazmente segui quando me apaixonei por Somerset Maughan (meus deus, sou tão antigo!!!) -e esperar que na próxima reencarnação seja desde muito novo jornalista. Felizmente não aconteceu isso. Gostei da minha estreia na Rua de Baixo. Aqui. E já agora, saboreiem as imagens do Rui de Freitas.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Ora aqui está um lugar, ao contrário das pistas de carrinhos, que estimula a minha verve blogueira. Tínhamos bilhetes à borla para o maior espectáculo do mundo, no Coliseu. Há borla, é como quem diz. Não há nada de gratuito no circo. Tal como alguns programas de televisão são um pretexto para passarem anúncios, também o circo é cada vez mais um pretexto para os vendedores de queijadas, de pipocas, de algodão doce, de varinhas de luz e até, de fotografias com animais, como a daquele tigre bébé que andava a sofrer ao colo de um dos empregados do circo, que, rodeado de fotógrafos, dava a volta a todo o recinto. A dez euros por picture podia um exemplar humano posar ao lado do bichano, substituindo a ideia de selva por aquela moldura aparentemente mais humana. Lá veio o circo e antes de mais os palhaços. Um par inusitado: uma matrona e um pequenetote, deixaram cair pela arena a maior quantidade de lugares comuns e de grosserias que se possam pensar sobre a relação entre um homem e uma mulher. Louve-se o público, parco no riso, não se deixando entusiasmar pelo ambiente sonoro. Ainda haveria de vir um palhaço a sério, quer dizer, trajado enquanto tal mas a fazer apenas de animador dos intervalos de montagem para os números mais arriscados, os trapezistas, os equilibristas e os acrobatas. Ainda antes do circo acabar viria um número cómico com cães amestrados, que se deveriam chamar cães-palhaços, porque foram os únicos a fazerem-nos soltar um riso 3.5 na escala dos Gatos (que é já de si utilizada para conseguir captar variações de humor de baixa intensidade). Saí de lá no entanto com vontade de mais circo, de andar com eles, de ouvir as suas histórias. Hoje já sei o que seria se voltasse a ter vinte e um anos: palhaço, palhaço pobre, palhaço-mimo.

Ando há muito tempo para escrever sobre isto, o excesso de espírito competitivo nas crianças. Começaria mais ou menos por aqui: Só querem ganhar, ganhar, ganhar. No meu tempo não era assim. Não precisávamos de ganhar para sermos gente, para sermos pessoas. Brincávamos com flores, com plasticina e poesia.
Ando há muito tempo para escrever sobre isto. Hoje, tinha finalmente arranjado um bocadinho para dois dedos de prosa, quando ele me pediu para ir montar a pista de carrinhos e jogar um pouco com ele. Não sei como eu, um escritor de posts, acedi. Já devia saber o quanto são desastrosas estas incursões no real. Antes não o tivesse feito. Quando acabámos de montar aquela mini-pista de carros, comprada a 9 €, depois de darmos uma volta à pista, aquecendo os motores - a ideia foi minha, assumo - começámos a corrida. Dez voltas. Ainda não tinhamos dado cinco voltas e já, pelos meus gritos, pelo meu nervoso miudinho, pelos nomes que lhe tinha chamado, percebi que ainda não é desta que vou escrever o post sobre o meu tempo e a incrível tendência para a competição das crianças de hoje. Não que não tivesse tempo. Ainda antes de acabar as dez voltas fui despedido do quarto com o epíteto, o pai é um batoteiro, e de volta à sala poderia finalmente escrever o tão almejado post. Se não me tivesse passado a sobranceria.

Sábado, Dezembro 05, 2009

A tribo do (meu) pequeno falcão.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Amor e Violência

Hoje vinha com esta predestinação: escrever sobre o amor na sua forma tentada. Parece um pleonasmo, o amor será, talvez, em si mesmo, uma tentação. Há quem diga, uma provação. Depois encontrei este excerto de Pavese, e novamente parei diante desta frase à procura de salvo-conduto para depositar nela o testemunho do fogaréu interior. Por vezes a alma surge-nos assim, como se revolta. Tudo o que se viveu, o que se aprendeu, o que se pensava que se sabia, parece não significar nada. Nada diz então. Nem o frenesim das ruas, ou o colorido dos alteares das vozes dos vizinhos, o movimento das pessoas, os seus gestos, as suas faces translúcidas, os seus risos pranteados, o céu pardo. O próprio rio se nega ao proferir, a alguma sorte de mnemónica que nos pudesse sussurar, é por ali! É preciso por vezes deixarmo-nos ir, entregarmo-nos ao silêncio do corpo, de um pensamento que subrepticiamente se escapa por entre as entrelinhas. Tudo é nada e nada é tão tudo, que até estremece. O amor e a violência, o amor e o medo, o medo de nós mesmos, o medo de existirmos. E não é o amor, ele é uma ficção universal, a maior ficção universal que, desde o fundo dos tempos, consumiu todos, realistas, utópicos, pessimistas, positivistas, míticos: é a relação. É o estarmos em relação. Não há receituários, não há posologias recomendadas, tudo és tu e eu, eu e tu, sejas tu nós, tu, ou apenas um espectro existencial que preencho com o meu vazio. Já soube mais coisas sobre tudo, inclusivé, sobre o amor, a sua inexistência, a sua improbalidade, a sua ternura. Perdi todo o meu saber, não o sei dizer. E se o escrevo, é apenas porque com o passar dos anos desenvolvi com alguma perícia esta habilidade de fazer sair a minha história pela ponta dos meus dedos. Tento saber um pouco mais sobre o que é a violência. Na minha idade a violência, a violência interior, não é um momento aconselhável a pessoas demasiado sensíveis. E a relação - já não disse o amor - que parece muitas vezes ser a supressão da violência, é, demasiadas vezes, o palco mundial da violência. Não é por acaso que a violência doméstica acode a tantos lares e com igual generosidade tanto ao humilde como ao letrado. E não é só por causa do tempo que passamos isolados - isolados, já repararam que as nossas casas, a forma como as construimos, são uma espécie de ilha solitária onde estamos recolhidos do mundo? - é também porque a relação é o lugar onde a certa altura nos confiamos ao outro na nossa interioridade. Nos nossos segredos mais profundos. Ou até nos mais pequenos. No outro dia, para saber se a amava, se verdadeiramente a amava, coloquei a prótese debaixo da cama. Estava escuro, mas o efeito vocal na minha boca desdentada denunciou-me. E eu estive ali um mundinho inteiro, uma vida quase, a tentar perceber se tinha caído por um precípicio, o precípicio que é também o meu medo de existir em relação. Não caí, a sua mão firme segurou-me, claro. E nem tudo são segredos de mentirinha, como este falso pudor, que me vem de ter começado a usar placa muito cedo, desde os dezanove anos. Há segredos, como a nossa violência, que são tão bem guardados que até de nós os escondemos. Uma espécie de vulcão que irrompe, e que nos deixa desprevenidos. Torna-nos irreconhecíveis. Por vezes a violência é tanta que não permite que nos reelaboremos. Temos de sair das nossas relações. Tantas e tantas vezes que o frágil fio de linha que nos prende na relação se quebra porque a nossa violência, como se fosse um espelho, nos trouxe uma imagem de nós próprios que não conseguimos nem sequer, na nossa solidão, aceitar, quanto mais, em relação, partilhar. E não há medida para isso, cada um de nós, é um caso, e provavelmente fará diferença a forma como nos fomos, ao longo da vida, relacionando e convivendo com a nossa violência. Há milhares de anos, ou pelo menos no milénio anterior, escrevi em Paz Violenta, texto anexo à declaração de objecção de consciência: um adepto da não-violência não é alguém que não é violento, é alguém que, assumindo-a, a tenta trabalhar de uma forma positiva. Também a relação não-violenta, carrega às costas, como um fardo muitas vezes, a sua própria violência, desassociando-a dos estereótipos que temos sobre a violência: destruição, anulação e supressão do outro.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

No berço de um país

Tasca Expresso

Vende mel do apicultor local, vinho, biscoitos e doces. Regueifa. Paios. Há garrafões de verga pendurados no tecto, o balcão é de pedra. Estamos no berço da nacionalidade, senhores e senhoras, haja respeito. Confesso que só lá entrei pelo nome do boteco mas já lá dentro demorei-me a pegar nisto e naquilo, a perguntar por aquilo e aqueloutro. A razão do título não tem a ver com o chamariz para os clientes, sim uma lanterna vermelha para o proprietário e único empregado da loja:
- Chamei-lhe expresso para me lembrar que não queria passar aqui muito tempo!

Domingo, Novembro 29, 2009

Partilho agora um novo espaço, A Regra do Jogo. Continuarei a respirar, este é um projecto de escrita que se vai manter sempre, embora sofra claro com o meu derrame que neste momento acontece noutras escritas, nomeadamente a jornalística, experiência à qual voltei com a paixão dos meus vinte anos abertos.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Jantar em família

O que uma bolonhesa consegue fazer pela literatura que apenas mais um tem dentro de si.

Ficar em casa

Trabalhar ao fim de semana tem as suas vantagens. Ficar em casa a um dia de semana. Acordar com tempo para namorar. Sorrir para o despertador e dizer-lhe, hoje levantas-te tu, se quiseres. Sair à rua para comprar pão e ouvir o vozear da rua. Todas as ruas têm um vozear próprio. O da minha concentra-se toda no cruzamento desta com a rua descendente de Sapadores, fazendo uma caixa de eco onde se juntam serventes, trolhas, comerciantes, roça-paredes, o barbeiro quando sobe cá acima para um penalty, algum taxista que parou para pedir trocos, o chocalhar das socas das donas de casa que abrem a porta dos seus quintais de onde começam a sair cheiros de comida caseira. Basta subir um pouco para ficar de novo no silêncio dos prédios novos, estruturas de argamassa e betão cada vez mais inodoras, insonoras. Olho o rio antes de entrar em casa, é um ritual diário, não me despeguei dele nunca, subo as escadas com energia enquanto me benzo, invisivelmente, para que nenhum deus mais atento não me possa acusar de algum género de religiosidade vadia. Ao chegar a casa, empoleirado à janela, depois de me meter com o Jeremias e a Mia, um casal de gatos, ainda hei-de saudar os vizinhos de baixo, são do teatro, os artistas têm horários de morcego, como dizia a minha mãe quando há muitos anos me via sair de casa às cinco da tarde para ir trabalhar, ele está agachado no canteiro de terra com uma pequena tesoura de podar. Corta as ervas daninas mas não as arranca, estranho, é para fortalecer a terra, responde-me, nunca tinha pensado nisso, é muito novo o meu vizinho mas interessa-se por estes saberes da terra, das plantas, das folhagens. Os nossos quintais são pequenos logradouros, com um canteiro de terra ao fundo, mas ele consegue, com a ajuda de toda a sorte de vasos, fazer crescer uma pequena floresta colorida e refrescante. Para minha felicidade. A janela do quarto é como uma pequena televisão onde me esqueço do tempo a passar. E daqui a nada é noite, e amanhã folgarei de novo.
Vou finalmente poder perguntar-te, oficialmente, sem nenhuma provocação: - Quando é que te casas? Estou ansioso.

Agora sim o casamento entre pessoas do mesmo sexo

Agora que parlamentarmente existem condições para aprovar a proposta da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, relembro as questões, e objecções, que aqui, acerca de um ano, levantei ao modo como esta questão tem sido discutida. Acabo de ver uma sessão dos prós e contras. Eu e ela estamos divididos. Embora dividíssemos o sofá aninhados por este frio a fingir - ou que parece que ainda não veio - ela estava sentada na bancada dos prós e eu, andava por ali a cirandar, sem encontrar lugar que me coubesse. Congratulo-me com o facto do meu país ir dar um passo importante na constituição formal dos direitos dos casais do mesmo sexo. No entanto continuo a registar a minha incompreensão pela forma como o debate público tem escamoteado questões importantes. Não fiquei muito esclarecido sobre muita coisa que acho importante, nomeadamente, como é que se vai lutar pelos direitos civis daqueles casais de pessoas do mesmo sexo que não querem validar a sua união através do casamento. Também, repito, esta proposta, inovadora e arrojada do ponto de vista politico, é, do ponto de vista cultural, porque segue a agenda lgbt sem lhe introduzir nenhuma criatividade, de um conservadorismo escusado. Já aqui o defendi e torno a repetir: gostava que em Portugal houvesse uma profunda reforma do casamento que permitisse o aparecimento de um novo instituto que assinalasse, para todos, a profunda viragem positiva que hoje podemos ter sobre a forma como as novas dimensões da sexualidade e da afectividade se projectam na família. Não vou repetir todo o argumentário. Eu sei que os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo não gostam de ouvir isto, mas mais uma vez, verbero-lhes o seu grande conservadorismo. E intolerância sobre a dimensão cultural e simbólica que o casamento tem para a vida de todos aqueles que têm a ideia de casamento como uma união entre sexos opostos.

Domingo, Novembro 15, 2009

Escuta-me...

Não percebo nada do que se passa no país onde vivo. E tenho algum receio das palavras que escrevo. Sinto, como nunca o senti, que quando a dimensão ética se perdeu na cidade é cada um de nós que tem de a reinventar para si mesmo, na relação com os outros, com a comunidade. Não vou falar dos casos do dia. Nem para inventar indignações, nem para me desdobrar em acusações baseadas em factos que não têm aquela qualidade de factos com que, antes desta avalanche de lama, a nossa realidade se habituara a certificar os acontecimentos da vida. Quando eu fui para a escola preparatória apaixonei-me pela história por causa disso. Os factos, diziam-me, eram credíveis. Não quer dizer que tivessem acontecido. Podiam não ter acontecido. Por exemplo, o meu amor pela história renovava-se quando um novo historiador, lembro-me quando Borges Coelho chegou ao meu conhecimento, aparecia a reinventar a história. Ora não se pode reinventar a história senão se assumir que ela foi mal contada. Não, a credibilidade não tinha tanto a ver com a natureza dos objectos produzidos, os factos, mas com o esforço de imprimir rigor ao controle de produção que havia na fabricação dos factos. Nunca pensei escrever uma coisa como esta, embora soubesse que mais tarde ou mais cedo também eu me tornaria vulnerável ao argumento: não confio nesta realidade, esta realidade perdeu o real. E quanto mais passivamente a aceitarmos como real mais estamos a deixar que a qualidade da nossa vida se desvaneça. Votarei de novo daqui a quatro anos, a dois, quando suas excelências quiserem. Mas até lá assumo dolorosamente a minha incapacidade de ver a realidade através deste circo histérico com que, como se valquírias debutantes, passam em meu redor o circo dos senhores procuradores, dos juízes, dos deputados, dos ministros, dos comentadores e jornalistas. Falem-me, quando me quiserem de volta ao vosso real, do colibri, do guarda-rios, das begónias, do vento e da insensatez com que a morte ceifa sem critério nem medida . Ou daquele jovem que hoje, pelas quinze horas, escolheu o canto mais recatado e isolado da basílica da estrela, para sofrer - num espasmo de dor tão silencioso que, como um grito, me sobressaltou - a dor de uma rapariga estupidamente levada desta vida.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Novo filme de Teresa Villaverde

A realizadora de Os Mutantes, Transe e a Favor da Claridade prepara um novo projecto e para isso procura um actor jovem, que tenha entre 18 a 25 anos, com ou sem experiência. Contactar através do email: alcefilmes@sapo.pt .

A menina do cão do fiat e o seu amante

Não tenho escrito muito aqui, não me tem calhado. Alguns projectos de natureza pessoal. Primeiro foi a preparação de um projecto de doutoramento, antes, durante e depois tenho estado a ajudar o Marcantónio e o João Didelet a divulgar Figuração Especial (termina já no próximo domingo), depois das obras o projecto do serviço educativo e de animação lá do teatro começa finalmente a dar os primeiros passos, tudo isso, para além da realidade, a querida realidade, tornaram-me arredio quer do respirar, quer de outros lugares onde por vezes ía escrevendo. Um deles é o Olivesaria, lugar de afecto, de nascença, de vivença. Mas no outro dia, ao sair de casa da minha mãe, o post veio atrás de mim.

O Solista

Não nos tem saído mal a segunda-feira. Depois de Abraços Desfeitos, belíssimo filme, este extraordinário Solista.

Dois anos

Há dois anos um bate-pé levou-nos ao infinito. Agora erguemos o copo, compramos flores mas no fundo sabemos, um amor assim não se mede assim, pelos anos. Os tubos de ensaio afilados no laboratório falam de nós. O sangue, o suor, o sémen, a dor, o riso, a festa, o choro. Quantas revoluções já couberam em 24 meses? Dias, horas? E quantas ainda por encetar?

Domingo, Outubro 25, 2009

Obrigado Mega Ferreira

Sempre que para aqui venho, e por um estranho flashback, sinto-me no futuro. Lembro-me de tudo. Da Petroquimica mal cheirosa, cheia de perigos, dos contentores que não só atravancavam a vista da cidade como também tornavam aquela zona um lugar excluído, a excluir. Ontem, foi terreno para um delicioso passeio de uma hora, em que voltámos a ser amigos e aventureiros. Eu, a lembrar-me, e a virem-me à boca palavras de gratidão por um homem que sacrificou tanto da sua energia para fazer tanto e tão imensurável bem a toda a gente.

PH de uma vida improvável

Há muito que palavras tão compridas como felicidade deixaram de fazer sentido para eu me compreender na minha vida. A consciência do mundo onde vivo matou por completo a possibilidade de eu ser feliz. Como já se compreendeu, não foi a minha vida que mudou, que se tornou mais cinzenta, foi a minha maneira de a entender. O que é saudável, parece-me. Se a minha maneira de ver o mundo e as coisas fosse, aos 47, a mesma do que as de um jovem de 17, talvez a minha revisão da matéria vivida tivesse de ir num outro caminho. Mudou a minha consciência de vida e mudaram também os meus indicadores. O meu indicador de que a improbalidade em que se constitui a minha vida é uma circunstância feliz é quando muda a hora. Se automaticamente penso, mais uma hora para dormir, é melhor sairem da minha frente. Ao invés, como agora, se sentisse uma alegria por ter mais uma hora para saborear o dia, seria sinal de que podia até faltar quase tudo cá em casa, mas que de esperança e fé, estava aviado.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Cantam as nossas almas

Ontem foi um dia que começou dificil. Ao entrar no teatro, a notícia que já adivinhávamos: oO Miranda, o João Miranda, o luminotécnico do Trindade tinha apagado as luzes do mundo, do seu mundo. Duas horas depois desta entrada, uma sms, anunciava-me um novo João no mundo. Veio com pressa, num repente, os Joões são uns valentes, não tardam. E foi assim, a cantar, que continuou o meu dia.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

A regra do jogo

Mais um blogue de ideias para o confronto de razões, nas razões que a ideia de cada um promove. Entre os outros os meus vizinhos Eduardo Graça e Luis Novaes Tito, a quem saúdo.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Bernardo Santareno merecia mais

Sou um grande admirador da obra dramática de Bernardo Santareno. Fiquei por isso muito contente ao saber que na sua cidade tinha sido criado um Instituto com o seu nome e que este, entre outras atribuições, promovia um prémio que é, a nível nacional, o mais importante concurso literário. E concorri. O que já não vai sendo muito o meu hábito porque infelizmente tenho sabido de tantas ou tão poucas sobre concursos deste género que vou, como em tudo na vida, desistindo a pouco e pouco de concorrer. Poupa-se no papel, poupa-se nas árvores, e são uns não sei quantos filhos da p. que deixamos de legitimar. Por isso, deixei uma porta aberta para o prémio Bernardo Santareno. Não só pelo valor monetário, também por incluir a representação e a edição da obra. E pelo prazer de concorrer a um prémio que homenageia um dos maiores dramaturgos portugueses do século XX. Mas de repente, sob o céu limpo, começam a vir as nuvens. A primeira, foi quando ao fazer uma pesquisa sobre o Instituto encontro esta carta aberta ao seu presidente. Não é de facto o melhor cartão de visita, mas pensei, são coisas locais, isto é um prémio nacional, haverá certamente outro decoro e recato. Por isso quando soube do anúncio dos premiados, fiquei contente, felicitei até os distinguidos que estavam mais à mão. É então que começam a vir ter comigo informações sobre metodologias de merceeiro utilizadas para a selecção dos textos. Não posso contar mais, como agora se diz, há que proteger as fontes, o próprio fontanário, resta-me apenas o desabafo: Bernardo Santareno merecia mais.

Os dias assim

Quando eu tinha dezanove anos lia Brecht,
Rousseau, Vitor Hugo,
acreditava na redenção dos aflitos, dos pobres,
das madalenas e de todos os humildes que comiam o pão
que o diabo amargou.
Não tinha ideologia. Tinha bandeiras. Desfraldadas pelo vento norte,
foram épicos os meus dezanove e os vinte e
ainda mais uns tantos que se seguiram.
O cosmos era uma laranja cortada em duas metades
cujo sabor, significado,
e sentido,
estavam ao alcance da minha compreensão.
Não me posso queixar do que se seguiu. Entre esse tempo e os dias de hoje
passaram-se vinte e oito anos o que quer dizer
que me posso considerar abençoado por um deus a que,
por nele descrer,
não pago tributo.
E se, por vezes,
quando sou preterido de um concurso qualquer,
sejam os jogos florais ou literários da minha rua,
o casting para fazer de homem-sanduiche,
de louco ou de polícia sinaleiro,
o campeonato da sueca,
ou até o totoloto,
série um, série dois ou euro milhões,
praguejo, berro, grito
com a incompetência do julgamento que me excluiu,
a verdade é que,
em relação ao grande desafio,
o maior de todos os maiores concursos
o que verdadeiramente conta,
o de, dia a dia,
acordar do lado dos vivos,
dos que têm de,
oh grande angústia da existência e do drama humano!,
tomar o café matinal,
descer as escadas três a três,
ouvir o chilreio na árvore em frente,
em relação a esse,
olho a minha vida,
o que fiz, o que não fiz, o que talvez venha a fazer,
a quantidade de gente que todos os dias fica por aqui,
sem um aceno sequer de despedida,
e não percebo porque é que o grande júri,
o supremo tribunal
desta vida,
continua a deixar-me ir a jogo. Vou, e isso é que (me) importa.Já não leio Brecht,
Rousseau,
- abro parêntesis, ainda me emociono com a saga de Jean Valjean-
creio tanto no mistério dos aflitos
como dos abençoados pela sorte e
pela fortuna,
e o meu único combate é
chegar ao fim do mês,
de cada mês.
Não tenho relógio. Não preciso.
Dou pelos dias a passar pelas tarefas de que
estou,
solenemente,
investido.
Pagar a renda de casa.
Regar a hortelã. Pouco. Mais a salsa.
Menos ainda o cacto aloé. Ou
a lucialima. A água,
também encharca.
Dar a quinzenada ao petiz.
A água quando é demais afoga.
Traçar a bissectriz.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Farm Ville

Agora que já elegemos os nossos representantes,
o primeiro-ministro,
os deputados e as deputadas nacionais,
os deputados e as deputadas europeias,
o presidente da comissão europeia,
os e as presidentes de câmara,
os e as presidentes das assembleias municipais,
das juntas de freguesia,
das comarcas,
do clube de futebol do bairro, da cidade,
do país,
agora que até já elejemos Barack Obama
no qual não votámos por uma mera circunstância formal,
podemos voltar ordeiramente à realidade
dos dias
e das noites
e fingir que a vida que construímos
é realmente vida,
vida a sério,
vida com V grande,
de vitória,
acabou-se a história.
a
a
Acabou-se a história,
pensamos enquanto nos afundamos,
no estertor do sofá
pago a 24 meses na Moviflor,
quando não está ninguém do outro lado do plasma,
a 36 meses na wortem sempre,
até o raio do jantar que se azedou
no estômago,
trazido em sacos de plástico
com o cartão do Continente,
acabou-se a história,
hoje o Grissom despede-se,
diz adeus,
vai-se embora,
o adn da nossa desvida,
a azia passa-nos do estômago para
o coração,
nós não queríamos,
a leveza não está à venda,
nem a beleza,
tigresa,
acabou-se a memória,
esqueci-me, dizemos,
esqueceste-te de quê?,
perguntam aqueles pares que inventamos para
não percebermos que estamos
fora
fora do mundo
fora do sítio
fora da vida
os putos cresceram
, dizemos
as fotografias espalhadas na sala
são pequenos troféus felizes
os nossos dias
passados assim, agora
que já elejemos os nossos primeiros e segundos e terceiros
representantes
na rua, no bairro, na cidade,
no país, no continente, no mundo
esquece-te outra vez de viver,
de saborear a maçã,
a grande maçã livre,
o pecado original
e põe-te novamente
como fazes sempre,
na fila
para a distribuição de benesses
e de milagres
do santo antoninho.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

O MEP em Lisboa

Já expressei aqui o meu sentido de voto em relação às próximas eleições autárquicas. Reforcei essa minha convicção quando fui à apresentação do programa cultural a que se dedicará Catarina Vaz Pinto, proposta de António Costa, para a vereação cultural da cidade. Tenho vinte e sete anos de ligação à cultura e nunca vi, a este nível do poder político, um discurso tão clarividente sobre a actividade cultural. Há pouco no entanto tomei conhecimento com a candidatura do MEP, bem como o programa político que a suporta. O cabeça de lista à Câmara é José Costa Ramos cuja delicadeza humana - e como eu, tantas vezes bruto de sentimentos, um paquiderme numa loja de porcelanas, aprecio a delicadeza alheia! - já tive o privilégio de desfrutar. A generosidade com que ela foi construída , a riqueza das suas ideias, " que bonita é a cidade com que José Costa Ramos sonha!", faz-me sentir que é um dever espalhar a palavra, neste caso o link. Até porque ela corresponde a algo que é cada vez mais profundo, a necessidade de que a política se transforme, deixe de ficar tão refém de interesses partidários de natureza corporativa, e seja a vontade de sonhar com a cidade, com uma determinada cidade. Apetece-me dizer, obrigado José Carlos.

Domingo, Setembro 27, 2009

Última nota

O analista de sofá em que, prazenteiramente, me transformei hoje, fecha a sua análise com uma última nota: se as projecções se confirmarem, o Partido Socialista, independentemente do seu ideário e património político de esquerda, e no espectro político nacional, torna-se inquestoonavelmente no partido do centro. Um partido cuja composição política, cujo ideário e património político é de esquerda, mas que, entre dois blocos parlamentares claros, o da esquerda e o da direita, está inequivocamente ao centro. Nesse contexto é curioso ver um Bloco de Esquerda dizer que há um reforço da esquerda em Portugal quando pode ser precisamente o contrário: a esquerda ter perdido muitos votos, porque perdeu os votos do PS, que, por causa do alargamento de uma esquerda mais radical foi mais empurrado para o centro. Ou será que o Bloco e a CDU que tanto lutaram contra a política de direita do PS, agora, que ela foi revalidada, já analisarão os votos do PS como de esquerda? Ou seja, se o PS tem uma politica de direita, porque é que antevi no discurso de Louçã, um discurso de vitória? Por terem tirado a maioria absoluta ao PS? Mas esse é um louro que têm de disputar com o PP, com a CDU e com o PSD, e nessa caldeirada ideológica onde situar o contributo do Bloco! E como ficarem contentes com o perderem uma maioria absoluta de um adversário, que tanto os fez crescer politicamente? Como vão crescer agora? Eu não dava nem um cêntimo para estar na pele de Louçã. Quanto mais deputados tiver mais protagonismo terá a pulverizar o seu e isso será dificil de gerir através da metodologia de controlo de poder que realizou até agora. Quando passar o folclore político da cobertura televisiva das eleições, um pouco ao ritmo de um desafio, de um jogo, a poeira vai assentar e vamos descobrir que provavelmente o bloco de direita pode ter ficado, pelo menos durante os próximos dois anos, mais forte. É que Cavaco conta.

A maioria relativa, lida pelo lado da alegria

A verificar-se uma maioria relativa onde o Partido Socialista tenha mais votos do que qualquer um dos grandes blocos políticos, a esquerda e a direita, temos um cenário político que será ainda mais vantajoso para o Partido Socialista já que é de facto uma maioria que lhe permite uma absoluta tranquilidade na legislatura - assim saiba ter a inteligência (ou o instinto de sobrevivência) política - e ao mesmo tempo lhe retira a antipatia, o incómodo e os problemas de uma maioria absoluta.
Porque, nesse cenário, a menos que o PS ensandeça, só por um enlouquecer político de uma das outras forças política é que poderíamos ver o Bloco de Esquerda, ou o Partido Comunista, a juntarem-se ao CDS e ao PSD, para derrubarem o PS. É que neste cenário também não seria suficiente um acordo entre o Bloco e o PSD, ou entre o PSD e o PCP, e todos sabemos o que o surrealismo destes cenários poderiam vir a ter no novo acto eleitoral.
Se assim for, o Partido Socialista tem todas as razões para exultar: revalidou o seu mandato, sendo que o deverá exercer num clima de uma maior vigilância democrática da Oposição, que não terá capacidade, senão academicamente, de derrubar o governo, mas que poderá exercer uma maior pressão social. Por outro lado, o Partido Socialista tem um lider com uma energia política fortissima, com uma capacidade de exposição política impar e que por isso estará também em boas condições para exercer um magistério governativo nestas condições. Sobre isso não deixa de ser significativo que um dos actores principais de confronto com o Governo socialista na área da educação, Mário Nogueira, esteja associado a uma força política que poderá vir a perder representatividade política. É claro que, haverá no PS, muitas pessoas que gostariam de ter uma maioria absoluta e que nesse sentido estarão bem longe dos exultantes. Mas esses são talvez os mesmos a quem o país se preocupou em negar que governassem nessa condição.